Laurentino Gomes: como um best-seller mudou a história da História

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Depois de ter sido convidado para as cerimônias de entrega dos prêmios Jabuti e Sesc de Literatura, encerrei duas intensas semanas de eventos editoriais com um encontro de peso.

Na quarta-feira 30 de novembro, voltei ao auditório da Universidade do Livro (Unil), da Fundação Editora Unesp, no centro de São Paulo (SP), para mais uma edição do “Encontro com os Escritores”. Lá, onde em setembro estive com o mito Luis Fernando Verissimo, pude estar, desta vez, com o best-seller Laurentino Gomes, autor da trilogia “1808”, “1822” e “1889”.

Este encontro, na verdade, foi um reencontro. Laurentino já havia me recebido na Editora Abril, quanto ainda era editor da revista Veja. Ele é conhecido do meu sogro, e, gentilmente, abriu as portas de sua sala, na ocasião, para conhecer um projeto editorial que eu havia elaborado com meu irmão Bruno Freitas.

Desde então, procurei manter contato com Laurentino. E se eu já era seu admirador enquanto colega de trabalho, virei fã depois que me tornei leitor de sua excepcional obra literária.

Ainda que tenha se tornado um dos principais autores do Brasil, Laurentino Gomes se mantém acessível e simples. Não se deixou afetar pela fama repentina, tampouco pelos inúmeros prêmios nacionais e internacionais que merecidamente conquistou nos últimos anos.

Tanto isso é verdade que ele meu deu a honra de enviar-lhe um exemplar do meu Histórias (Quase) Verídicas. E, neste reencontro, na Universidade do Livro, tratou-me carinhosamente como colega – de Jornalismo e da Escrita. Lição de humildade para muita gente.

Mediado pelo jornalista e escritor Paulo Werneck, ex-curador da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), o “Encontro com os Escritores” com Laurentino Gomes foi excelente.

O autor tem uma cultura acima da média. E, como escritor, pesquisador e historiador não-acadêmico, soube como ninguém mudar a história da história. Laurentino tornou-a saborosa, acessível, instigante e divertidíssima.

Não à toa, hoje dedica-se somente à produção literária. E já prepara, desde 2013, para 2019, um volume que irá recontar a história da escravidão no Brasil. Em seis anos de pesquisa sobre o tema, estima que lerá 150 livros considerados essenciais para a produção de sua obra. Não tenho dúvida: vem novo best-seller por aí.

Aliás, Laurentino Gomes detalhou seu processo criativo. Basicamente, ele produz em cinco etapas. São elas:

  1. Planejamento e organização de capítulos;
  2. Leitura, pesquisa e entrevistas de orientação com fontes confiáveis;
  3. Montagem de “copiões” – compilado das pesquisas de cada capítulo, num material bruto que, às vezes, pode chegar a 200 mil caracteres, segundo ele;
  4. Reportagem de campo, nos locais onde os fatos aconteceram; e
  5. Edição final do texto.

Separei alguns trechos e aspas de Laurentino Gomes, a exemplo do que fiz com Verissimo, para sintetizar o que foi dito durante o evento. Confira:

  • O livro “1808”, o primeiro da triologia, foi lançado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2007. Em certo momento do evento, Laurentino foi chamado por seu editor, Pascoal Soto, então na Editora Planeta, e levado ao estande da Saraiva. “As pessoas compravam meu livro igual pãozinho quente. A partir daí, minha vida mudou. A ponto de pedir demissão do meu emprego”;
  • “O Brasil é uma República mal-amada”;
  • Laurentino diz que tinha poucos livros em casa quando era criança. Ele e a família viviam num sítio em Maringá (PR), sua cidade-natal. O pai costumava pegar livros emprestados do pároco da região. Mesmo jovem, já gostava muito de história. Crê que sua paixão por Jornalismo e História surge exatamente nessa fase da vida;
  • Foi seminarista dos 11 aos 13 anos de idade. Nessa época, leu “A Metamorfose”, de Franz Kafka, sem saber sobre a importância histórica dessa obra para a Literatura mundial. Confessa que se sentiu incomodado com a leitura;
  • “Não existe uma única história. A história é plural e comporta muitas interpretações. Ela é uma grande construção que nunca acaba”;
  • Laurentino Gomes diz que, logo após o lançamento de “1808”, foi muito questionado por alguns acadêmicos sobre uma suposta falta de legitimidade do seu trabalho, haja vista não ser um acadêmico;
  • Proporcionalmente, “1808” vendeu mais em Portugal do que no Brasil. No entanto, enfrentou certa resistência naquele país, por ter tecido algumas críticas à nação à época da fuga da corte portuguesa para o Brasil. Algumas dessas críticas renderam até um livro, chamado “Contestação a 1808”;
  • “Eu sei que estou querendo explicar o tempo presente” (sobre o anacronismo da história relatada na trilogia e o momento atual do Brasil);
  • Fez terapia durante três anos após o lançamento de “1808”. Segundo ele, isso foi necessário porque a transformação da obra em best-seller o pressionou a entregar um segundo livro [“1822”] tão bom ou melhor que o primeiro. “Falava sobre Dom Pedro com minha terapeuta”;
  • Mudou-se para os Estados Unidos para escrever “1889”;
  • Laurentino é quem faz as próprias pesquisas históricas; ele não conta com apoio de pesquisadores. “Gosto mais de ler do que de escrever. Se dependesse de mim, não escreveria; só leria. Ao pesquisar sozinho, sinto a alegria das descobertas, e gosto de passar isso para o leitor”;
  • Antes de ser publicado, “1808” foi oferecido para uma editora, que recusou a obra. A justificativa foi que D. João VI, protagonista do título, não era assunto de interesse da maioria das pessoas;
  • “A imprensa é o espelho do que nós somos como sociedade” (opinando sobre se a imprensa manipula ou não a sociedade brasileira);
  • Laurentino Gomes afirma ter sonhos reveladores. Por isso, costuma deixar um caderno e uma caneta do lado da cama. “Às vezes é assim que nasce um capítulo inteiro. Estou cada vez mais atento a esse processo criativo que vem da intuição”

E por falar em intuição, cabe registrar, para quem não sabe, que Laurentino Gomes também é autor de um livro muito pouco conhecido, do qual o próprio autor raramente fala. Trata-se de “O Caminho do Peregrino – Seguindo os Passos de Jesus na Terra Santa” (Globo Livros).

O escritor justifica a discrição com dois argumentos. O primeiro, que é uma obra pessoal, de autodescoberta de sua espiritualidade; o segundo, que o tema é sensível a muitas pessoas. Assim, para não correr o risco de ferir suscetibilidades, Gomes opta por não propagandear o livro.

E desde quando Laurentino Gomes precisa de propaganda?

Até a próxima!

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