Crônica: Mudança

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Crônica: Mudança

Faz poucos dias, eu e minha família nos mudamos. Trocamos um apartamento por outro. Um pequeno, de meia-idade, por um grande, antigo – e por isso mesmo grande.

O negócio foi daqueles de oportunidade: ou fechávamos, ou provavelmente permaneceríamos instalados em 54 metros quadrados por pelo menos mais uma década.

Fechamos. E não foi um negócio propriamente dito, tradicional; foi um acordo familiar.

Aliás, não foi somente um acordo familiar; foi uma transação muito mais emotiva do que financeira.

Nessas grandes voltas da vida, retornamos para o lugar onde tudo começou, há mais de 15 anos. Foi no apartamento grande que conheci minha mulher. Era lá que ela vivia.

Fomos dele para o cartório e do cartório para o apartamento pequeno, o primeiro das nossas vidas. E foi nele que constituímos família. Tivemos nosso herdeiro. Iniciamos, encerramos e reiniciamos novas vidas. Sim, porque nossas vidas mudaram inúmeras vezes enquanto lá estivemos. E sempre para melhor.

Fomos muito felizes – ainda que isso seja clichê e piegas. Tão felizes que até agora nosso pequeno Benício ainda nos pergunta quando vamos voltar para casa.

E isso não significa que ele esteja infeliz no apartamento que ele conheceu como sendo da avó. Pelo contrário. A questão é que deixamos uma parte de nós dentro do apartamento pequeno. Deixamos uma história gravada naquele espaço.

Chorei ao trancar a porta dele pela última vez. Admito. E senti um ciúme quase cego daquele vazio, daquele eco, por saber que, agora, ele será ocupado por desconhecidos. Pessoas que construirão uma nova história naquele espaço onde construímos a nossa – e que, espero, sinceramente (apesar do ciúme), que sejam tão ou mais felizes do que nós fomos.

O que me conforta é saber – ou melhor, ter-me dado conta, só agora – que histórias e recordações também podem ser transportadas. Não em caixas de papelão pardo, adesivadas, empilhadas num caminhão de mudança.

Dei-me conta que histórias e recordações não são árvores, eternamente enraizadas num único terreno, até que alguém ouse derrubá-las.

Elas até podem fazer mais sentido num local do que em outro. Mas não são palpáveis, físicas. E por isso mesmo podem ser levadas para onde for. Desde que estejam eternizadas em nossa lembrança. Desde que estejam eternizadas em nosso coração. Porque ele – nosso coração – é a verdadeira morada das nossas histórias e recordações.

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