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Crônica: Feito dinossauro

Meu celular tocou enquanto eu comprava, pela internet, uns adesivos de super-heróis para o quarto do meu filho. Do outro lado da linha, o próprio Benício. Era domingo, hora do almoço, e ele havia ido às compras com a mãe.

Benício estava agitado. Perguntou-me se eu ia brincar com ele quando chegasse. E eu respondi que sim, claro! Aquele domingo seria só dele.

Mas Benício não se satisfez com minha resposta. Queria saber do que eu gostaria de brincar. E eu, claro, disse que brincaria do que ele quisesse. Era só escolher.

Benício escolheu brincar de dinossauro. E perguntou se eu brincaria de dinossauro com ele. Lógico, filho! Quando você chegar a gente brinca, tá?

Eles chegaram dez minutos depois. E meu pequeno, claro, correu ao meu encontro. Procurava pelo pai que prometera brincar de dinossauro assim que ele chegasse.

Pedi um minuto para terminar o trabalho que fazia no computador. Só que o tempo, para ele, avança em outro ritmo. E um minuto não é necessariamente um minuto.

Benício começou a rabiscar no meu bloco de anotações. Desenhou, sobre registros meus, um quadrado retangular e uma cobra triangular. Pediu que eu olhasse.

Olhei de relance e o parabenizei com afeto. Mas pedi que parasse de rabiscar nas minhas anotações.

Virei a folha e disse que ele poderia escrever apenas nas que estivessem em branco.

Ele me ignorou. Depois, pediu para sentar no meu colo. E eu o atendi, claro.

Benício começou a perguntar, insistentemente, quando iríamos brincar de dinossauro. Respondi que esperasse só mais um minuto. Um outro minuto.

Ele protestou. Arreliou-se. E tentou apertar algumas teclas do computador. Eu, claro, fiquei aborrecido. Mandei que parasse. Coloquei-o no chão e pedi que esperasse. Disse a ele que, se repetisse aquilo, eu não conseguiria terminar meu trabalho. E que, enquanto eu não terminasse, não poderia parar para brincar de dinossauro com ele.

Benício retrucou. Primeiro respondeu dizendo que eu havia prometido brincar com ele assim que chegasse. Mas que eu não parava de trabalhar. Depois, que eu pedi um minuto duas vezes. E que, mesmo ao final do segundo minuto – na conta dele -, eu não parava de trabalhar. Por fim, perguntou por que eu trabalhava tanto.

Eu me assustei com aquela pergunta. Mas não com a pergunta propriamente dita. Assustei-me com o significado dela.

Respondi, olho no olho, dizendo que papai trabalhava muito para poder dar a ele as coisas que ele queria ter e fazer.

Benício devolveu, com uma amorosa e invejável sinceridade, que tudo o que ele queria era que eu parasse de trabalhar tanto e brincasse mais de dinossauro com ele.

Eu parei. Na hora. No tempo dele. Porque o tempo dele, hoje, é o que há de mais precioso na minha vida. E, ainda que muitas vezes eu sequer perceba minha própria ausência, absorto no trabalho, não há dinheiro que, amanhã, poderá comprar o tempo perdido de ontem.

Parei, sim. E, para ele, vou parar sempre. Porque não quero – e não vou – tornar-me tornar um pai extinto. Feito dinossauro.

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